quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA



INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA


De Heródoto, o “pai da História”, ao século XX, diversas foram as formas encontradas de pensar e escrever a História. O curto texto que se segue, pretende dar a conhecer os passos fundamentais desse percurso.
Na língua latina a palavra história expressa dois conceitos distintos: plenitude de suceder e o conhecimento que se possui desse suceder. Sua origem é grega, e significa inquirir, com inclinação à curiosidade.
Plenitude de suceder, conhecimento desse suceder e recuperação dos valores antigos significam mais que mera enumeração de nomes, lugares, datas, números. Consistem em debruçar-se sobre o passado e formular-lhe perguntas para se apropriar do seu legado.
Ninguém produz, por si só, conhecimentos de que necessita para sobreviver na sociedade em nasce. A maioria chega com algo adquirido que recebe na interação com o meio social. Quando o homem se dá conta do mundo e de si mesmo, percebe-se rodeado de instituições e tradições as quais vive e atualiza de um modo natural, sem dar-se conta de que foi forjado neste entorno, com atitudes e visões tão arraigados em seu modo de ser, em sua psicologia, que nada lhe parece estranho ou desconhecido. Somente quando o homem sai do seu entorno vital e entra em contato com novas superfícies de valores, tradições e costumes é que começa a compará-los com os seus e a se perguntar sobre tais fatos e pelas verdades de umas e outras.
A história é parte dessa necessidade humana de refletir: é o desejo de explicar a origem e a verdade das próprias instituições e quem/qual acontecimento as estabeleceu. Para responder sobre sua existência atual e se conhecer, o homem tem que mergulhar em seu passado, perguntando às gerações anteriores por que essas instituições e não outras, por que certos costumes e atitudes, por que se tem determinada herança cultural, e assim por diante. Por possuir uma herança é que cada homem é um historiador em potencial. Assim como em cada homem há uma evolução biológica necessária, há também a manutenção de uma identidade ao longo das várias etapas desse desenvolvimento biológico, que nos distinguem e nos tornam únicos, sendo fator de compreensão do modo pessoal de ser. Com a história buscamos nossa identidade para compreendermos melhor o presente. E isto pode e deve ocorrer sob pontos de vista específicos: sociais, psicológicos, filosóficos e tecnológicos.
De forma geral, costuma dividir-se a evolução do processus histórico em três fases distintas: a fase pré-científica, que engloba as historiografias Grega, Romana, Cristã-medieval e Renascentista, a fase de transição em que se destacam a historiografia Racionalista ou Iluminista e a historiografia Liberal e Romântica. Finalmente, a fase científica, nas qual se tem o Positivismo, o Historicismo, o Materialismo Histórico no século XIX e a escola dos annales e a História Nova, em pleno século XX.
Considera-se que o processus histórico se inicia com os Gregos. De fato, é com Heródoto de Halicarnasso (considerado por alguns como o “pai da história”) que em pleno século V a.C. se faz, pela primeira vez, uma tentativa de investigação do passado, eliminando, tanto quanto possível, o aspecto mitológico. A História começa a abandonar o estudo de “coisas divinas” e começa a preocupar-se com “coisas humanas”. Heródoto procurou estabelecer uma causalidade entre os fatos históricos e os motivos que os determinam, fator de extrema importância se considerarmos que esta forma de atuação não é inata ao pensamento grego. Além de Heródoto, a historiografia grega conta com outros personagens importantes:  Tucídides e Políbio. Se Tucídides é importante pelo rigor que coloca na seleção dos testemunhos e pela imparcialidade que pretende introduzir na narrativa, com Políbio faz-se a transição da tradição historiográfica para os Romanos, destacando-se, entre estes, Tito Lívio e Tácito. No entanto faltou brilho à historiografia romana, e, em termos concretos, pouco se evoluiu relativamente aos helênicos. Se com Tito Lívio e a sua história de Roma ainda se vislumbra a introdução de algum método na investigação dos fatos, com Tácito e a sua perspectiva pedagógica, encontramos um relato eivado de parcialidade e preconceitos. Numa análise geral, podemos afirmar que a historiografia Greco-Romana se caracteriza por um sentido pragmático, didático e principalmente com os Romanos, pelo surgimento de um espírito de exaltação nacional. A História que com Heródoto e Tucídides apresentava um aspecto regionalista, passa com os seus seguidores a assumir uma perspectiva universal.
Para os historiadores gregos, a Ciência Histórica se define em relação a uma realidade que não é construída nem observada, como na Matemática ou nas Ciências da Natureza, mas sobre a qual se “indaga”, se “testemunha”. Este aspecto de história-relato, de história-testemunho, jamais deixou de estar presente no desenvolvimento da Ciência Histórica.
Com o advento da Idade Média, a historiografia sofre retrocesso, passando a apresentar relações teológicas que lhe imprimem um caráter providencialista, apocalíptico e pessimista. Deus passa a estar no centro das preocupações humanas: teocentrismo. A preocupação do historiador passa a ser a justificação da vinda do filho de Deus ao Mundo, e, depois desse evento, analisar as suas repercussões.
O Renascimento introduz grandes alterações na historiografia, tornando-se, novamente, o Homem o objeto de estudo. Assiste-se ao “ressurgimento” da herança cultural da Antiguidade Clássica, acompanhado de um desenvolvimento muito sensível das ciências auxiliares da História, como, por exemplo, a Arqueologia e a Numismática. É tempo do Antropocentrismo.
O período que antecede e acompanha a Revolução Francesa vai ser caracterizado por grandes filósofos, como Voltaire, Montesquieu e Jean Jacques Rosseau, que irão lançar as bases filosóficas de um novo mundo. Isto irá se refletir no estudo da História, dando-se nova orientação ao estudo, atribuindo-se maior valor ao estudo das sociedades do que propriamente das grandes personalidades.
A historiografia Liberal e Romântica que surgiria na seqüência do movimento liberal que “invadiu” a Europa em pleno século XIX irá debruçar-se sobre o Homem, as sociedades e os municípios. É uma História eminentemente regionalista, com grande simpatia pela Idade Média (advento das nacionalidades) e que introduz subjetividade na narrativa. É um período de grande divulgação cultural, há um alargamento de público e os historiadores são, em alguns casos, jornalistas, como Thie e Guizot.
Com Auguste Comte são lançadas as bases do Positivismo que, como afirma Colingwood, é a aplicação da filosofia às Ciências da Natureza. Institui-se um método que ainda hoje é, em sua essência, utilizado e a fim de contrariar a subjetividade romântica, o papel do historiador passa a traduzir-se na pesquisa dos fatos e na sua subseqüente organização, fazendo sua exposição através de uma narrativa tão impessoal quanto possível.
O rigor do Positivismo não seria, segundo alguns historiadores, integralmente aplicável às Ciências Humanas. Assiste-se ao surgimento de um movimento denominado Historicismo, que dedica atenção à subjetividade e à interpretação, embora aproveitando muito do método positivo. A História, que segundo os positivistas não deveria ser interpretada, mas redescoberta, passa a constituir um processo pleno de subjetividade. É Ranke que de alguma forma indica a evolução ao relevar importância ao aspecto econômico na evolução das sociedades.
A partir do momento em que se começa a reunir documentos escritos, a historiografia começa a ultrapassar os limites do próprio século, superando também as limitações impostas pela transmissão oral do passado. Com a construção de bibliotecas e a criação de arquivos, iniciou-se o desenvolvimento de métodos de crítica. Sobretudo depois do final do século XVII, estabelecem-se os fundamentos para uma metodologia aplicada à História, sob uma radical exigência de submeter toda investigação à razão crítica. A segunda metade do século XIX impôs um paradigma, que, a partir daí, passa a ser chamada paradigma tradicional ou paradigma rankeano, derivado do nome do historiador Leopold von Ranke (1795-1886). Ranke propunha apresentar os fatos tais como “foram na realidade”, e os historiadores europeus criam os grandes esquemas políticos e institucionais.
Características desse paradigma, conforme Peter Burke, historiador de Cambridge:
§  a História diz respeito essencialmente à política;
§  é essencialmente uma narrativa de acontecimentos;
§  “visão de cima” no sentido de estar concentrada nos feitos dos grandes homens;
§  baseada em documentos;
§  deveria perguntar mais pelas motivações individuais do que pelos movimentos letivos, tendências e acontecimentos;
§  a História é objetiva, entendendo-se, por isso, a consideração do suceder como externo ao historiador, suscetível de ser conhecido com objeto que se põe diante do microscópio, almejando uma neutralidade.
Ainda no século XIX, vozes soaram discordantes desse paradigma histórico. Devido a seu caráter reducionista, onde situações históricas complexas são vistas como mero jogo de poder entre grandes homens (ou países), e também função daquilo que se poderia chamar a “tirania” do fato ou do documento, importantes, mas que não deve levar à abdicação de outros tipos de evidências. Como relata Peter Burke, Michelet e Burckhardt que escreveram suas histórias sobre o Renascimento mais ou menos na mesma época, 1865 e 1860 respectivamente, tinham uma visão mais ampla que os seguidores de Ranke. Burckhardt interpretava a História como um corpo onde interagem três forças: Estado, Religião e Cultura, enquanto Michelet defendia que hoje poderíamos descrever como uma ‘história da perspectiva das classes subalternas (...)”. Outros opositores da “história política” foram os historiadores da evolução sociedades sob o ponto de vista econômico e os fundadores da nova disciplina da sociologia, que começaram a surgir na França.
No entanto, a interpretação econômica só vira concretizar com o aparecimento do Materialismo Histórico, de Marx e Engels. Estes dois autores defendem que a História constitui, no seu essencial, uma “descrição” da luta de classes que sempre opõe explorados e exploradores. A economia passa a constituir um aspecto de capital importância na evolução das sociedades, nomeadamente no que toca à posse dos meios de produção. Marx divide a História em cinco grandes capítulos e introduz a noção de descontinuidade do processo histórico. O homem passa a ter papel mais modesto, passando o estudo das massas a ser mais atento. Há um aproveitamento da filosofia Hegeliana (tese-antítese-síntese), defendendo Marx que a realidade não é a concretização do espírito do Homem, como afirmava Hegel, mas sim o “motor” que condiciona o espírito humano. Segundo Barraclough, a contribuição do marxismo é fundamental pela nova orientação que é conferida ao processo histórico. Orientação que irá culminar com a escola dos Annales e a História Nova.
É desse período o nascimento da revista francesa Annales, considerada uma das mais importantes propulsoras da chamada Nova História, termo que data de 1912 quando o estudioso americano James Harvey Robinson publicou um livro com esse título. Segundo Robinson, História inclui traço e vestígio de tudo o que o homem fez ou pensou desde seu primeiro aparecimento sobre a Terra. Em relação ao método, a ‘nova história’ vai servir-se de todas aquelas descobertas que são feitas sobre a humanidade pelos antropólogos, economistas, psicólogos e sociólogos
De acordo com Burke, a Nova História diferencia-se da tradicional em seis pontos: o paradigma tradicional diz respeito somente à história política, a Nova História, anteriormente, preocupa-se com uma história total, onde tudo é histórico; a história tradicional pensa na história como narração dos grandes fatos, a nova preocupa-se em analisar as estruturas; a tradicional olha de cima, a nova, de cima, de baixo e de outros ângulos possíveis; documentos oficiais são os que interessam ao paradigma tradicional, o paradigma da Nova História aceita qualquer espécie de documento; o historiador tradicional explica por meio da vontade do indivíduo, histórico, a Nova História preocupa-se com os movimentos sociais, as tendências; e, finalmente, o paradignia tradicional considera a História uma ciência objetiva, o paradigma novo não crê na possibilidade de uma objetividade total.
Surgiu uma outra idéia de uma história total, com a qual quiseram os autores da Escola dos Annales advertir que, frente à unilateralidade e reducionismo do materialismo dialético, a compreensão do passado exige que todos os dados - políticos e institucionais, ideológicos, econômicos, sociais, da mentalidade humana etc. - fossem fundidos e integrados para conseguir uma explicação correta. Uma tarefa árdua, na prática quase impossível, mas que marca um ideal, uma direção, uma meta que é preciso atingir.
Surgiram ainda outros enfoques como, por exemplo, à história do ponto de vista quantitativo, atualmente em moda na Europa e Estados Unidos, que procura utilizar fontes quantitativas, métodos de contagem e até modelos matemáticos na sua pesquisa histórica, ou as histórias que abrangem um determinado campo da vida humana como a história da arte ou a história das ciências.
O panorama atual, de acordo com os historiadores, é o de uma história fragmentada, detectando-se alguns sinais de busca de uma síntese. Ainda se está a uma longa distância da "história total". Na verdade, é difícil acreditar que esse objetivo possa ser facilmente alcançado - ou até que será alcançado -, mas alguns passos já foram e estão sendo dados em sua direção.

Texto a partir de BURKE, Peter (org.): A Escrita da História. São Paulo: Editora UNESP, 1992, 360pp. E: As Grandes Correntes Historiográficas da Antiguidade ao Século XX. Por Pedro Silva em:
http://www.terravista.pt/nazare/9110/HA_Artigos-Biblio%5CArt001.htm

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